Friday, November 25, 2011


A VI
AGEM (reedição)

 * a propósito de uma certa viagem no dia 25 de Novembro de 2006


"Porquê esse sorriso?..."

- Estou a recordar...

"O quê?"

- A estação de comboios.














A estação era...era naquilo ali em frente. "Naquilo, como?" Perguntou o poeta meio intrigado. Frente a isto, nada lhe disse: «o silêncio ajudá-lo-á...» pensei. Quando assim acontece, ele sabe que mais tarde encontrará a resposta. Voltando á estação, concluo uma vez mais: Sempre que deparo com uma coisa daquelas, desperta em mim uma sensação esquisita, vagarosa...lá dentro, não se tem nunca a mesma idéia. Aquilo, no seu interior é um páteo a dar acesso á mudança. Então, com um objectivo definido, entrei: havia gente chegando mais cedo para esperar. O movimento eram linhas cruzadas em várias direcções. De súbito, pensei: «E se eu não for hoje?» Esta dúvida, significava alguma coisa, com a sua linguagem cá dentro. Essa coisa sabia atraír-me ao seu jogo: o comboio era o pretexto, e eu entrava nele.















Através da janela, deixei-me olhar, tentando ir ao encontro das coisas. O fadário começara: primeiro um poste, depois o casario, tal como o comboio em direcção inversa. Havia gente parada, enquanto o pensamento andava de um lado para outro. Os pensamentos eram como folhas soltas, dispersas pelo vento. Gente parada, seguindo como as árvores para lado nenhum. Deixei-me estar, eu sabia que a Coisa já tinha dado por mim...














"A coisa!?"

Entretanto, Ela ligou-me:

«Olá, tudo bem?...
Eu já cheguei...e tu, vais demorar?»

«Sim, tudo bem...já não me sinto apavorado.
Agora estou apenas com medo...
Ainda falta um pouco, minha querida...
Mas sossega,
Vou a caminho e não tarda estaremos juntos.
Estás nervosa?...»

«Hum-Hum...» Retorquiu Ela.
«Um pouco ansiosa, talvez...mas isto passa.
Vou esperar por ti, míudo...
Um beijo...até já!»














Enquanto isso a paisagem espreitava-me de todos os lados, trazendo-me á memória a delicadeza do seu rosto, o encanto do seu corpo belo e doce que as minhas mãos tantas vezes tinham tocado em sonhos...

"Mas que Coisa era essa?"














- De momento,
Só sei que excitava...

"E depois?"

- Sabia que iria massacrar-me
Com os seus pensamentos,
Por isso
Desfrutava o mais que podia.

"Desfrutavas, como?"

- Tirar partido, o quanto antes,
Daquela janela...














"Ver cores?"

- Ver gente,
Movimento,
E sobretudo luz...
Porque pensar é horrível!
Verdadeiramente,
A minha intenção
Era servir-me da memória...














"Mais nada?"

- De momento,
Não podia fazer mais nada!
Por esta razão,
Às vezes aceito a ideia
De que não preciso pensar por mim...
Apesar disso,
Acabo normalmente por controlar-me...
É uma chatice!

"Não compreendo porque não me levaste..."

- Pois não...
Talvez, porque o ser
No ser
Não
tem contornos;
Não se mostra como imagem:
O ser
É o que é:
É o contorno da imagem
Organizando-a.














"Com quem falas?"

- Estás atento...

"Com quem falas?"

- Cala-te!...
Ele,
Na medida em que é pensado,
Deixa entrever que o Homem
É no pensar...
O pensar,
Da verdade do ser,
Que questiona
Em ser para ele
A objectividade do subjectivo...
De ser,
O ser no Homem,
Coexistindo
No próprio facto
Da forma que lhe é dado ser,
Para ser mesmo.

"Pára com isso!
Fala-me do comboio."














De repente, o mundo estacionara. Lá fora, através da janela, o desenho parecia estático, sem movimento como em certas pinturas. Fôra tudo breve paragem no apeadeiro mais próximo. A Coisa interrompera-se...mas eu sabia que ela regressaria; era somente uma questão associativa e pronto: o pensamento é uma fatalidade a coisa não pode deixar de ser.
"O que é a Coisa", perguntou o poeta. Eu poderia dizer-lhe que a Coisa, é justamente aquilo que está por detrás daquilo que não tem antes nem depois e que só a partir do momento em que for significada poderá ter isso...isto é: ser limitada — mas, ás vezes, o poeta cansa-me.













Esta idéia, nesta tentativa, tem a sua evidência: evidência essa, que vai desde o ser á relatividade infinita, na qual o pensamento brilha com a sua mágica do real, enquanto na aparência do visível, há só um gesto por classificar. Para cá disto, não está o tempo da minha percepção.

"O que está em vez disso?"

- O Não-Ser!...


















"Precisamente aí,
Ao reflectires,
Estarás uma vez mais
Contemplando para cá..."

- Contemplando tudo aquilo
Que me é anterior.
Ou porque a minha subjectividade
Não quer ficar sepultada
Em seu silêncio...
Aguardará
Que o desconhecido se mostre...
Direi melhor:
Espera pela maré.
Ou espera nascer,
Tal como naquela foto da Daniela.














Lembras-te?...

"Sim!...Essa foto é fantástica,
Plena de significado!...
Mas e o silêncio?...
Que silêncio é esse!?"

Subitamente, alguns ruídos vindos de fora acentuaram mais o ambiente do meu compartimento.

"Porque te calas?"

- Lá está!...
E se houvesse qualquer coisa
Do lado de fora!?...

"Do lado de fora!?"

- Exactamente aí!...
Sem lado de fora
As esferas
Giraram cá dentro...

"Brincas comigo!"















- Se te explicasse, não compreenderias...
Contudo,
Tentarei dar-te pelo menos
Uma aproximação:
Há pouco,
Aqueles ruídos
Libertaram-se do peso e do atrito.
Eles me fizeram vêr
Todo o comboio por fora...














"Mas tu disseste
Sem lado de fora!..."

- Por fora só eu estou,
Vê se compreendes!...

"Sim...
E mais?"

- O meu olhar, cá dentro,
Estende-se ao longo dos carris
Como se ficasse em terra firme
Ao vê-lo partir...













"É curioso!...
Como a gente se engana...
Eu achava isso
Fácil de mais
Mas a verdade é que não sei
Aonde queres chegar...
E o que tento ver é confuso...
Mas ainda há outra coisa..."

- O quê?...

"Tu próprio és confuso!"














- Não...
Quanto a isso estás enganado...
O que se passa é o seguinte:
Este meu mundo,
Ou seja:
Esta maneira de ver
É já o próprio mundo
Em percepção constante,
Onde tudo é situação confusa
Por mais pormenorizado e explícito
Que eu procure ser!...

"Talvez seja como dizes...
Mas prefiro que me fales do comboio..."

- Quanto a ele,
Só sei que em dada altura,
Tudo me era interior...

"Agora percebo..."

- Enquanto isso,
Um resto de luz
Tornava ainda visível
Aquela distância interna,
Na qual um outro tempo
Percorria de quando em vez
O espaço intransponível
Da minha curiosidade.



















"E o comboio?"

Reparem como ele pergunta pelo comboio...inconscientemente, recorda-se da infância...pobre poeta...é sem, dúvida alguma, uma perfeita criança.
















"Então?"

- O comboio?...

"Sim."

- Em sentido inverso ao tempo,
Seguia um outro rumo
Dento de mim...


"Compreendo perfeitamente."

- Ainda bem...

"Só não entendo a tua intenção..."

- É fácil!
Quero voltar a amar!...














"Está bem, está bem...
Mas porque motivo devo esquecer o comboio?"

- Essa imagem rídicula
Terá de ser anulada,
Tal como a criança em ti!...
O que é importante
É viveres o presente da narrativa.

"O que devo saber então?"

- Enquanto expus o que expus,
O que ficou no teu inconsciente?...

"Não sei!"

- Concentra-te!...

"Espera...é isso!...
Um resto de luz..."














- Meu caro:
Em quase tudo,
A luz é tudo...

"Porque não em tudo?"

- Porque não existe Tudo!...
Essa
É a razão, ainda,
Pela qual a Coisa não pára...














"Claro!
Esse ainda..."

- Ainda bem!...

"Mas, então como é?...
Tu próprio disseste
Que a luz é tudo!..."

- Neste caso
Luz é limite.
Ou seja:
Em certo prisma
A luz não evolui,
Caminha apenas no tempo...
Ou melhor:
No tempo do espaço,
E para não dizer o contrário,
Dir-te-ei:
A luz é o próprio tempo,
Na medida em que luz
É tempo iluminado.


















"O que queres dizer com
Um outro tempo?"

- O meu.
  
"É engraçado...
Para cá de outras coisas,
Sinto que há qualquer coisa...
Qualquer coisa de místico na luz!"

- Apenas a nossa compreensão
Está lá...
E quem sabe realmente?...
Contudo, agora
Falar-te-ei de outra luz...

"De qual?"

- Daquela que imobiliza
O sinal do silêncio
Do tempo humano…














"A que te referes?"

- À dos teus sonhos,
Aonde não existe tempo algum.

"Será que nos sonhos,
O silêncio vem da escuridão?"















- A qual silêncio fazes referência?...

"Ao dos sonhos!..."

- Aí não há silêncio!...

"Porquê?..."

- Não há razão para tal!...

"O silêncio está sempre
Do lado de cá?"

- Aí mesmo!...
E não será
Para que a luz tenha movimento...

 








"Não perguntei isso!"

- Antecipei-me à pergunta!...

"E para cá daí?..."

- Tudo é já em seu silêncio,
Ou muito antes da razão
Poder vir a ser
Alguma coisa mais...

"A razão evolui?..."

- Transformar-se-á!...

"Mas a Razão
,
A Moral e a Justiça
Não são valores eternos?..."

- Nunca foram!...
Já te respondi a isso:
Com o tempo
Tudo muda...














"E a eternidade?"

- É por enquanto contrária
À razão da razão...

"É pena..."

- Pois é!...
Começas a saber
Que o Homem só descobre
O que já existe
Em seu Nada autêntico,
Em seu mundo inventado...
Ou ainda: porque
Toda a semente humana
Terá dentro de si
Um outro Homem que não fala
E que não pode libertar-se...












"Porque não?..."

- É melhor pensar nisto mais tarde...

A viagem aproximava-se do destino, Ela esperava-me...e os meus receios, dúvidas e desejos aumentavam agora de intensidade. Por muito que eu tentasse controlar-me, a ansiedade escorria pelas minhas mãos, fazendo lembrar-me quão nervoso estava. De repente, a Coisa voltou apoderou-se de mim e segredou-me:

O teu tempo,
Por detrás
Daquilo que já conheces,
Circunda o espaço
Que forma cada coisa.
Enquanto que a noção de matéria
Será alterada, cada vez mais,
Pela insistência reflexiva
Ao alcance da distância.

Deveria haver nisto, ou para isto, uma referência a um outro tempo que não o meu. Referência a outras cores e ás formas da paisagem futura mas isto é ainda inconsciente. Essa insistência reflexiva e organizada subsiste para que a idéia de eternidade permaneça, ao mesmo tempo em que o Universo continuará a ser paralelo á transformação do seu humano ser. Quando dei por mim, tinha chegado...e o ponto de partida estava já reflectido no passado. Tudo aquilo, ou para aquilo, em que não pensei em meu próprio tempo estava ali, bem vivo ainda, em plena recordação naquela janela...


















"Esse «ainda»
É pura recordação!..."

- Que sabes tu?...
Esse «ainda»
Era mais do que para isso...
E no entanto
Era coisa aparentemente estática...

"O que se passou depois?..."

- Somente uma dúvida me assaltava...

"E qual?..."

- Aquela que provém dos sonhos
Ou sei lá de quê...

"Sim, mas qual!?..."














- Será que Ela vai gostar de mim?...

"E então!?..."

- Mais tarde
Conto-te os pormenores...

Súbitamente, uma voz trémula interrompera-me a reflexão:

 «Já é uma hora?»
«Já!» Disse eu.














Dizemos que sim a tudo quando queremos que nos deixem em paz.

(Dois temas: "MEMORIES" - Rosenberg Trio,
"The Journey Home" - Keith Jarrett)

foto de Daniela Rocha)

















* Esse dia estará para sempre cá dentro, minha linda Danishe...
Khanimambo, my love!

Pain-Killer

Sunday, September 18, 2011


A COR 
NÃO É COR DE COISA ALGUMA (I)













Muito se fala acerca das coisas, no entanto muito pouco se sabe. Por exemplo, quando se diz que a «coisa em si mesma é a mais fácil de conhecer de todas as coisas» isso não é mais do que rir das coisas, perdendo-lhes o devido respeito. Porque a «coisa em si» é a natureza da própria coisa em seu silêncio, em seu ser fechado.

"Como assim?
A coisa em si não se entrega?..."

- De modo algum!...
Vive em seu mundo,
E é para nós
O que há de mais abstracto.
















De súbito, ao olhar para este chão, apercebo-me que a «coisa em si» que piso é indiferente à classificação que lhe damos, à sua verdade impossível de captar, à sua não-verdade, ao seu nada autêntico. E se lhe tocamos, o que sentimos é nosso está em nós. Neste sentido, e porque é o objecto que estimula a nossa sensação, dizemos naturalmente: «o objecto é quente, é frio, etc, etc...» Mesmo assim, alguns poderão demonstrar que a sensação passa para nós.















"Admitindo que passa,
A interpretação será nossa?..."
















- Nossa até certo ponto!...
Entretanto, faço-te a pergunta:
Poderás sentir ou gostar
Sem ser por tua causa?...
A razão é tua ainda...















"Mas tu disseste..."

- Eu sei a que te referes...
E onde é que isso vai dar?...
Deixemos isso e ouve com atenção:
Se alguém ou alguma coisa
Te diz ou faz
Seja o que for,
A resposta é tua...
Quero dizer:
Ninguém "fala com a minha voz",
Ninguém "ouve por mim"...
É tudo uma forma de ser em si,
Sem ser para nós
Ou em nós.















"Sem ser?...
Onde queres chegar?
Nunca és verdadeiramente directo..."

- Nada é directo!...
Quanto a esse "ser",
Devo esclarecer-te
De que todo o ser

É em si "coisa geral".
É quase ao mesmo tempo
Noção inconsciente do devir,
Ou porque o ser não estaciona.















"A coisa não pára?..."

- Nem em si!...
Então perguntarás:
"O que é preciso?
Pensar é conveniente?"
Dir-te-ei:
Sim...
Pensar é ler,
Ou seja:
Mesmo reflectindo
Não deixamos de fazer leitura.
Contudo ainda, reflectir é ler.















"Então pensar é isso?"

- Exactamente!...
E uma vez que a nossa verdade

Está em causa,
Teremos de fazer daquilo,
Que julgamos ter determinado,
Um outro "aquilo",
Como sendo o que terá de ser...

Assim tem sido!...















"Portanto,
Coisa em si
É ser em si?..."

- Mas ser
Não é conclusão,
Nem determinismo somente...
É mais do que isso:
É ser para isso
Movimento!...
















"Ser é realmente devir?"

- Não há paragens.

"Devir...
E quando, como?..."


Face a isto, é fácil compreender que estaremos sempre do lado de lá do mundo, como se estivéssemos dentro de qualquer espelho. Sobretudo porque "eu próprio" significa "coisa em mim".

"O que acabo de ouvir
Deixa-me confuso,

E justamente por isso
Impõe-se fazer-te esta pergunta:
Tudo aquilo que pretendo saber
Justifica a minha ignorância?..."


- Nem tudo...


"Pensei que a resposta
Seria outra..."


Com isto, o poeta revelou a sua posição...ele estava a levar longe demais aquilo que sabia. É preciso ponderar os ânimos antes de se fazer perguntas invulgares, como por exemplo:

- Onde está o "outro lado",
A outra metade,
O equivalente da existência?...















"No pensamento?..."

- No pensamento?!...
Ora se o pensamento
For a causa da existência...



















"Da existência?!"

- Sim!...
A existência é uma ideia...
Do lado de cá da ideia
A coisa é outra!...














"Não compreendo..."

- E se mesmo assim
Me atiro "para cá do tempo"

E me deixo aí,
Porque razão
Me guardo sempre para depois?...
Lamentarás imenso...
Neste "levar-me daqui",
Como que em desistência,
Não pode deixar de haver uma intenção:

Intenção de fuga enquanto penso.
















"Pensar...
O que será pensar?

Será somente ler?..."

- Pensar...















De certa maneira, penso que pensar é fugir ao estaticismo da presença. Mas não...também não...enquanto se pensar poderá permanecer a ideia de fuga...enfim, a coisa escapa-se de novo.

"És insaciável!..."

- Não percebes?...
Essa fuga é,
Em certa medida,

Renunciar indirectamente à existência.



















"Continuar a viver
Não é querer viver?"

- Antes de mais,

O que queremos é
Usufruir da si
tuação...
Damos pouco valor à vida!...
Em relação a este facto

Toda a existência
Tem um carácter absurdo,
Por ser irrelacionável.
E depois, é simples demais...
Direi mesmo:
A existência parece não existir.
















"Quase não compreendo..."

- Será que só existe aquilo
Por onde a existência passa?
Aquilo que eventualmente acaba
Ou se transforma?...




















pena..."

- Não entendes?
Tudo é acontecimento.
Mas é melhor
Pensarmos nisto mais tarde...

«Pensar», dizia eu:
A verdade é que
Arranjamos sempre maneira
De substituir as coisas...
Também aqui devemos desconfiar...

"E afinal para quê?
Se ao menos pudessemos evitar a morte...

E sabe-se lá de que forma morreremos..."















- De que forma?...
Poeta!...
Não se morre de maneira nenhuma:

Nem como sábio,
Nem como ignorante,
Nem como Homem.

"Nem como coisa alguma?"



















- Apenas se morre!...

"Morrer...
O que é a morte?..."

-É um problema de consciência.















"E o Homem?"

- É isso mesmo,
Não passa de consciência!...
O que é conveniente?

O que é conveniente é estar preparado para a morte. Porque quando tal suceder não passaremos do instante...ou como se nunca tivéssemos existido em tempo algum.

"Aí lhe veremos o fundo..."















Pensando bem, creio que nunca saí dele instante como instante em que nasci...ou ainda como se tivesse caído nele. Ainda noutro ponto de vista, penso que venho de mais longe, para cá do tempo sem origem...talvez do nada para o nada.

"Sendo assim,
A morte é realmente
Um problema de consciência..."

- Como vês,
É preferível

Continuar a desejar

Que me queiram.
Mas, verdadeiramente,
Só eu me quero para mim:

Onde tudo é

Desassossego,
Decepção,
Incluindo eu...
















"Será isso
Uma tentativa de estourares?..."

- A decepção
É já por si um estouro!...
Não!...
Quando for assim
É melhor ficar no suficiente,
Muito embora não se passe disso.

"Pois é..."

- Em face do exposto,
O Homem segue incompleto,

Agindo
Como se tivesse traçado para si
Um itinerário.

Mas o pensamento é gratuito.


















"Por ser determinado?"

- Sim!...
E não adianta pensar
Que se pensa por cima da linguagem
Para se ser mais que consequente!...

Se formos atentos na leitura,
Constataremos que antes da palavra
Havia o silêncio
Convertido em noite profunda...

Depois dela,
A realidade manteve o seu silêncio

E, a partir daí,

Tudo passou a ter aproximação.











"Aproximação, como?..."


- As coisas
Não eram,
Nunca foram,

Unicamente pareciam...

E, simultaneamente,

Parecia haver
Uma ligação adequada

Entre elas...















"Sendo assim, é pena..."

- Tudo se deixa num parecer...

"Parecer...parecer...
O que é parecer?"


- Mas que coisa...
Hoje não paras de perguntar...
Parecer?...
Parecer é não ser!...
Repara:
Esta palavra não é articulada,

É uma aproximação indefinida
Como quando um raciocínio

Aborda em vão o esboço duma ideia,

Tentando colocar nela a lógica.

Contudo, a Coisa

Está ainda no fundo de tudo.
















"De tudo?!..."

- Isto é uma força de expressão!...

"Diante disso, torno-me tímido..."

- Regressarás ao silêncio
Pelo silêncio...

Mais concretamente:
A um leve silêncio da renúncia.

"Como será esse silêncio?"


- É um silêncio vazio,

Para cá do pensamento.















"É assim uma coisa
Como uma atitude simples?"















- Como um reflexo passivo
De consciência breve...


"Breve...
E porquê?..."


- Porque o Homem
Não é inteiro de consciência!...















"Como posso compreender isso?"

- Ouve com atenção:
Na maior parte dos casos,
O Homem limita-se na suficiência,
E aquilo que mais o caracteriza,
Como consciência inteira
Que pretende ser,

É a consciência que vai tendo
Da sua humildade para consigo...
















"E depois?
O que interessa

É que toda a possibilidade

Possa cair no círculo do real..."


- Não me faças rir!...
Isso é inevitável...

"Será que tudo o que expões
Te convencerá?..."


- A maior parte...
E quando assim acontece

Estou de bem comigo...

Em todo o caso,
A dúvida subsiste.




















"Essa dúvida subsiste
Mesmo no caso de Deus?"

- Sem dúvida!...
















"Mas um dia tu disseste
Que acreditavas Nele,

«Através de um raciocínio irrefutável»!..."


- Sim...

Mas não posso dispensar a dúvida.
No entanto, Toda a dúvida actua periodicamente...
E isso liberta-me de quando em quando.
Ela levar-me-à sempre
A uma conclusão mais eficaz,
Contudo volta sempre...
Ou melhor:
Regresso a ela.

"Ah! Agora percebo..."

- Deixemos isso!...
E agora, diz-me:

O que represento para ti?...










"Sinceramente, não sei!..."
 

(Um tema: "PALHAÇO" -
Egberto Gismonti)
(continua)

Boa semana!


Pain-Killer