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FASCINADO PELA RAZÃO
DA MINHA EXISTÊNCIA

Estou com uma sensação estranha... sinto-me despido, uma nudez absoluta invade-me, penetrando até ao fundo do meu ser... é o meu quarto, que me espreita por todos os lados. De súbito, para cá e por debaixo da porta, um sussurrar de vozes conhecidas chega até mim... essas vozes não coincidem, conversam entre elas sem sentido algum. São meras palavras perdidas no tempo, onde o som aguarda sozinho numa infinita espera, resvalando indiferentemente pelas paredes brancas do quarto ao lado. Ele aguarda em vão, e nada irá conseguir porque não tem motivos sequer para falhar.E isso faz-me lembrar o outro que espera interminavelmente por Godot.
Quatro quadrados ligeiramente claros estão ocultos debaixo dos pés desta mesa, para o confirmar não precisarei de a mover. Assim como o poeta, que parece estar ausente, ou simplesmente silencioso, ocultando a sua existência... talvez à espera duma oportunidade para intervir... mas não... não pode ser, porque neste silêncio nada é espera. 
ABSOLUTAMENTE NADA!
Procuro pela mosca, a tal que me acompanha nestas ocasiões de ordem reflexiva. Imediatamente os meus sentidos captam a existência dum zumbido e movimento familiares, e então concentro o meu olhar sobre essa presença esvoaçante que se fixa sobre a superfície branca da mesa.
Olho bem para ela...
Aquela mesa rectangular
Onde escrevo,Tem os meus chinelos
Debaixo de si mesma.
Estou a ver-me nela,
E os meus pés
Doem-me nos pés.
Estão gelados...
Enquanto o meu quarto
Continua a espiar-me.E eu, exactamente como ontem
Sinto-me de novo na existência.
É bom saber isso...
De qualquer maneira, não é o estar vivo que me atrai... o que realmente me atrai e me fascina, é saber a razão que me levou de novo à existência.

" Essa razão é uma coisa
Naturalíssima. "

- Ah!...
Afinal, estiveste sempre aí, poeta.
NAKURANDZA YINTAMO, DANISHE!
( Um tema: " SHE IS SO BEAUTIFUL " -
- Waterboys )
Boa semana!
Pain-Killer
NA TAL TARDE
DO ANO SEGUINTE

Qualquer coisa como o tempo, decorre sem pressa, enquanto que no rosto das pessoas a tarde diminui cada vez mais.
- Poeta!Porque estás calado há tanto tempo?...
" Tenho estado a pensar... "- Em quê?!
" Dizem que o mundo é um palcoOnde se representa a vida!... "
- É uma bela metáfora, poeta...No entanto,Representar ou não, pouco adianta:
O Ser-Humano se fosse autêntico,Não necessitaria de representar!Seria igual a si próprio:
ÚNICO!...
É claro que istoNão passará nunca duma utopia." Fala-me de um lugarAonde nunca estaremos. "- NÃO TENHO FALADODE OUTRA COISA!
" Mas podes falar-me de alguresEm especial?... "- Como quem conta uma história?" Pode ser... "- Algures...Nesse teu futuro,Uma moeda completamente gelada
Habita aindaNO FUNDO DO POÇO
Ocupando o lugar da razão,Apesar disso ninguém desconfia..." De quê? "
-Não interessa...Tentemos imaginar como éA CONSCIÊNCIA HUMANA.
" Não sei se consigo... "- O que é mais fácil reluz sem aparência!IMAGINA-A AGORA:
" Sim... Consigo vê-la...Ali! "- « Ver é compreender »...
No entanto, no teu caso, penso que algo ficou para trás: - Alguns segundos - ; dirão as pessoas...
É provável que tenhas imaginado a sua forma visual e inerte, mas será isso suficiente para compreenderes a sua acção?!" O que não compreendo
É essa dialéctica... "- É a dialéctica dos elementosESTÁTICO-DINÂMICOS!
( Pintura digital de: Rocha de Sousa )
" Fala-me concretamente... "
- Concretamente, falo do « Homem-Estático-de-Falsa-Dinâmica » que não usa a sua « própria gravata », traz sempre a gravata do outro igual à do outro.
Ele mantém uma atitude de falsa-dinâmica, estagnada e submissa, ás vezes chegando a ser duma hipocrisia obscena, e no entanto diz-se inconformado com tudo o que lhe é imposto. Enfim, um extremo paradoxal que vê os seus lamentos como a forma mais expressiva de se manifestar.
Mas não me parece queFALAR COM UMA PAREDE
Fará a coisa mudar...
" Existe outra solução? "- Penso que sim...
O Homem terá que pensar por si mesmo, e para isso: cada um de nós terá de sair dos seus actos, dos seus próprios hábitos: dinamizando-se individualmente...Mas também há aqui uma certaINDEPENDÊNCIA MECANIZADA
funcionando num circuito redundante, mas muito específico...
Assim como uma espécie de vai-vem..." Como uma porta de salãoDos westerns antigos?... "- Ou coisa parecida." É igual em todo o lado? "- Não podia deixar de ser.
É uma sociedade com os seus direitos apropriados...
Uns são simples, e vivemENCADEADOS
Numa linguagem lírica e acessível que todos entendem.Outros são cultos e entendem-se vaidosamente por palavras pomposas, mas haverá sempre neles uma expressão simpática usada por conveniência ." Para não dizeres por hábito? "
- Ou isso!..." Enquanto falamDistorcem as suas intenções... "
- Pior ainda, é vê-los cobardemente envergonhadosDa pureza oculta, mas debaixo de cada gesto está a denúncia:O elemento abstracto inconsciente, que conduz à farsa." De que lado estão os autênticos? "- SÃO TODOS IGUAIS!...
" Semelhantes? "- GÉMEOS ENTRE SI
Sem qualquer distância
Na incapacidade indolente dos anseios... E não sabem:
" Que o Homem é capaz
De ser
O que pudera ser capaz.
Ou capaz
De serGesto de provir
A partir do instinto animal. "
E por enquanto não poderá ter outra escolha... Por não ser ainda verdadeiro nos seus sonhos." Pensando bem:É quase um mito;Uma classificação! "- Sim... mas para cá do mais,É extremamente necessário
Saber-se o que é aquilo
A que chamamos Homem...
" Mas o Homem não é
Aquilo que sabemos dele? "
- Não...
Aquilo que sabemos dele,SÃO ATRIBUTOS
QUALIDADES
Dessa tal coisa a que chamamos Homem,
E que eu teimo em saber o que é...
Contudo, ele é ainda o que não terá de ser." De ser!? "- DE SER
Na realidade longínqua icognoscível,Procurada dentro de si.Isto significa que, em qualquer dos casos:É apenas mais um nome torneando a verdade. Um nome sem essência, por enquanto..." O HomemÉ realmente estranho... "- Pressinto que essa coisa
É cada vez mais estranha na medida em que se aperfeiçoa.
" O que será o Homem? "- O HomemNão é ainda
O HOMEM.
Ele é precisamente a abstracçãoDaquilo que não é um homem... Seria melhor se estivesse maisPARA CÁ DE SI!
" Mesmo assim é um milagre! "- Assim parece, poeta... mas saber-se que pensa, e que a maravilha está no seu prodigioso englobante, não é ainda o verdadeiro milagre:
O milagre, está muito para cá daCONCEPÇÃO HUMANA.
Ele está, não em saber como o pensamento acontece mas justamente em saber que se encontra no lugar do acaso da causa, e que possivelmente será a causaPara o absoluto de si próprio.
Senão repara: Se me disserem que pensam, não poderei deixar de perguntar: como foi possível o pensamento?, e mais ainda:
O QUE É PENSAR?
Sim...
se me disserem que pensam por isto ou por aquilo, farei de novo a mesma pergunta..., que dizes tu a isto?..." Eu?- PENSO QUE PENSO -
O que o Homem pensa.
E se penso,
É por querer comunicar
Contigo mesmo,
E simultâneamente
Não quero ficar só... "
- É bonito!...Mas aqui,
Mais não fizeste do que dar
Um colorido filosófico à tua poesia..." Poesia!?A propósito:O que pensas acerca dela? "
- O que penso?, já te disse uma vez:
Acho que a poesia
Está fixa numa paisagem irreal.Ou seja: parece serAQUILO QUE NÃO É!...
" Vamos pôr as cartas na mesa! "- Isso não vai alterar a minha posição, mas o que tiveres a dizer diz!..." Tu precisas da minha presença!... "- Confesso que sim...
Mas há uma coisa que tem de ficar bem clara: cada qual na sua natureza...Teremos que obedecer a isso!..." Separados? "
- Dificilmente seremos um só!... " Foi sempre o que quiseste? "- Não!..." E quanto ao Homem? "- Quanto a ele, dir-te-ei: Se isso a que chamam Homem, quiser descer ao
FUNDO DO UNIVERSO

( Foto de: Rocha de Sousa )
Terá de ser o menos lírico possível...
Terá de continuar neste jogo murmurando para si: " Se tenho consciência deste eu,
Compreenderei
Que se trata de um eu
A ter consciência de outro... "Só assim a minha consciência mesmo determinada se manifestará, obrigando-me a concluir que ela ou qualquer outra coisa mais, nunca poderia decidir por si mesma." Mas apesar dissoNão deixará de perguntar:QUEM SOU? "
- Estás certo...
E isso significa que estás atento.( Um tema: " AIR FOR G-STRING- J.S.BACH " -- Modern Jazz Quartet & Swingle Singers )Boa semana!Pain-Killer
NA DIRECÇÃO DO MEDO
" Para onde vais?... "
- Não sei...
Sigo apenas na espiral,
Desprezando o conformismo...
NADA DE PARAR!... 
" O idêntico e o inseparável
Não se adaptam à tua consciência? "
- Não!...
Por suspeitar que a minha luz
SÓ SE APAGA UMA ÚNICA VEZ!...
Por isso mesmo ainda,
ODEIO A NOÇÃO DE ETERNIDADE
Pela simples razão
De qualquer tipo de limite
Estar infalivelmente ao meu alcance.
" O que é para ti a eternidade? "
- O que é?...
" Será realmente
- A IMAGEM MÓVEL DO TEMPO - ? "
- Aí está uma frase
Extraordinariamente bela,
Mas essencialmente poética!...
Meu caro:
Só na matéria existe movimento,
E para cá disso
Não há
Qualquer tipo de imagem no tempo.
" Mas trata-se da
IMAGEM DO TEMPO! "
- Qual imagem!?...
O tempo
É inexpressivo.
NÃO TEM APARÊNCIA.
" Nenhum objecto é imóvel? "
Só a eternidade o poderá ser...
Essa ausência total
Que é como uma autêntica janela,
FECHADA PARA A HUMANIDADE!... 
" No que acabo de ouvir
Algo me deixa confuso... "
- De que se trata?
" Tempo e eternidade
São a mesma coisa? "
- Evidentemente que não!...
Dum objecto a outro
O TEMPO PÁRA
E A ETERNIDADE NÃO...
Ou melhor:
NÃO TEM MOTIVO PARA ISSO!... 
" E porquê?... "
Porque a eternidade é imóvel
E simultâneamente
É EXTERIOR AO HOMEM!...
" Ai de mim...
É imprescindivel recorrer ao espírito... "
- EI-LO
Subindo à preia-mar...
À terra-céu
Da tua breve alegria...
" Breve alegria?...
Porque tem que ser breve?..."
- Porque o tempo assim o quer.
" Não gosto do tempo... "
- Vai... vai...
Vai nele,
No espírito,
Nessa tua incolor alegria... 
" O que é isto que sinto? "
- A par dessa mansidão inconsciente,
A natureza quase se desfigura
Num suave flutuar
Ante a visão inesperada
No interior desse meu sentir.
" E que poderei compreender
Nessa linguagem? "
- A que te referes?
" AO INTERIOR DESSE TEU SENTIR... "
- Quero dizer,
Que a minha sensibilidade
Não envolve aquilo que penso.
Aquilo que eu penso
NÃO ESTÁ EM MIM...
Unicamente o que está,
São as palavras:
REPRESENTAÇÕES
DAQUILO EM QUE PENSO. 
" O que se passa contigo? "
- Neste momento
Não sei o que pretendo dar-me...
SÓ SEI 
Que continuo a ter horror
A todo o significado!...
" E então? "
- Gostava de poder pensar
Fosse o que fosse
Sem me limitar.
Toda esta curiosidade
Jamais devia ser interrompida,
Mas o prazer de a saciar
A limita... 
Por outro lado,
Também não faz mal!...
O que é necessário
É fugir a determinismos metafísicos...
A essa maldita crença!...
O MEDO...
" Em ti existe o medo? "
- Naturalmente que sim.
" Mas porquê? "
- Porque entendo
Não só pela minha insignificância,
Mas também pela força exterior
Que sei
Ser mais forte que eu.
" Então, inconscientemente
Diriges-te para o medo... "
- Sim... 
Ele é a causa,
O COLOSSO
Que me conduz.
( Um tema: " SIMPLE THOUGHTS "-
- Kenny Barron/Mino Cinelu )
Boa semana!
Pain-Killer